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30/04/2012

[Poema] Do Medo


(1)


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 


Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


(2) 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 


desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


(Luis Filipe Castro Mendes, em "A Ilha dos Mortos")

[Filosofia] O "movimento" segundo Henri Bergson

A filosofia de Henri Bergson (1859-1941) volta a dar importância ao movimento interno de um ser e como ele concebe em sua consciência os movimentos observados. Tudo isso foi desconsiderado pela maior parte dos filósofos do determinismo. E segundo ele, o método científico que se utiliza de símbolos matemáticos é importante para se investigar um objeto no espaço de uma maneira relativa e de certa forma ilusória, pois acreditamos que o conhecemos por completo. Podemos conhecer o ser internamente mediante a metafísica e desta forma chegar a um absoluto:

(...) Seja, por exemplo, o movimento de um objeto no espaço. Eu percebo de maneira diferente conforme o ponto de vista, móvel ou imóvel, donde o observo. Eu o exprimo diferentemente, conforme o sistema de eixos ou de pontos de referência aos quais o relaciono, isto é, conforme os símbolos pelos quais o traduzo. E o chamo relativo por esta dupla razão: tanto num caso como o outro, coloco-me de fora do próprio objeto. Quando falo de um movimento absoluto, é que atribuo ao móvel um interior e como que estados de alma, é também, porque simpatizo com os estados e me insiro neles por um esforço de imaginação  (...) Em suma, o movimento não será mais apreendido de fora e, de alguma forma, a partir de mim, mas sim de dentro, nele mesmo, em si. Eu possuiria um absoluto. (BERGSON, 1984, p.13).


(...) A ciência positiva se dirige à observação sensível. Ela obtém assim materiais cuja elaboração confia à faculdade de abstrair e de generalizar, ao juízo e ao raciocínio, à inteligência (...) Ela prende-se ao que há de físico-químico nos fenômenos da vida mais do que ao que é propriamente vital no vivente. Mas seu embaraço é grande quando chega ao espírito. Isto não quer dizer que ela não possa obter aí algum conhecimento; mas este conhecimento torna-se tanto mais vago quanto mais ela se distancia da fronteira comum ao espírito e à matéria. (Bergson, 2006, p. 117).


(...) A maior parte do tempo, vivemos exteriormente a nós mesmos, não percepcionamos do nosso eu senão o seu fantasma descolorido, sombra que a pura duração projeta o espaço homogêneo. A nossa existência desenrola, portanto, mais no espaço do que no tempo: vivemos mais para o mundo exterior do que para nós; falamos mais do que pensamos; ‘somos agidos’ mais do que agimos. Agir livremente é retomar a posse de si, é situar-se na pura duração”. (Bergson, 1988, p. 159).

Fontes:
BERGSON, Henri. Introdução à Metafísica. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 1984, 238 p.
______ Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência. Lisboa: Edições 70. 1988, 164 p.
______ O Pensamento e o Movente. São Paulo: Martins Fontes. 2006, 304 p. 

08/03/2012

[Poema] Estilhaços de consciência


Vida abrupta e noite necrófila,
Sujeira ocupando todo o espaço, 
Com letargia tão premeditada.
Humanidade sórdida
É escrava do cansaço,
Causando neurose regurgitada.

Ignomínias assombrosas,
Enterradas na mente
E sagradas no corpo.
Palavra mentirosa,
Com insanidade ardente:
Metais rasgando o dorso.

Arrebentando toda razão,
Atropelando toda moral
E quebrando a paciência.
Atrocidades de antemão,
Vão corroendo o radical.
Estilhaços de consciência!

(Luis Valério Prandel)

06/02/2012

[Poema] Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.


A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.


Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem


Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.


(Vinícius de Moraes)

04/02/2012

[Poema] Infinito Complexo


Infinito tão complexo,
De calma e estranha beleza.
Verdades agindo sem nexo,
Com elevada pureza.

Alma passeia complexa,
No espaço quase infinito.
A vida está anexa
Ao universo indescrito.

Calor do sol chega e fere,
Em tamanha escala,
Todo o ser que adere
E denso fluído exala.

Atividade caótica,
Complexa e infinita.
Fugindo da nossa óptica,
Perpassando toda a vida.

Detalhes sempre evitados,
Num cotidiano raso.
Sentimentos acelerados
E infelizes nesse caso.

Na boca causadora da morte,
Nos olhos causadores da luz.
Que todo esse infinito aporte,
Ao centro de uma simples cruz.

Areia de cristais envelhecidos,
Água causadora de tantas vidas.
Nos corpos são tão bem acrescidos,
De complexidades pré-existidas.

Absorvendo a latência do sol
E do cosmos estranho e sem fim.
Linha do tempo em caracol,
Acumulando destinos em mim!

(Luis Valério Prandel)

25/01/2012

[Música / Vídeo] Longe


Onde é que eu fui parar?
Aonde é esse aqui?
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe?
Longe...

Onde é esse lugar?
Aonde está você?
Não pega celular
E a terra está tão longe
Longe...

Não passa um carro sequer
Todo comércio fechou
Não tem satélite algum transmitindo
notícias de onde eu estou

Nenhum e-mail chegou
Nem o correio virá
E eu entre quatro paredes sem porta
ou janela pro tempo passar

Dizem que a vida é assim
Cinco sentidos em mim
Dentro de um corpo fechado
no vácuo de um quarto no espaço sem fim

Aonde está você?
Por que é que você foi?
Não quero te esquecer
Mas já fiquei tão longe
Longe...

Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe?
Longe, longe, longe, longe
Longe, longe, longe

Seis, cinco, quatro, três, dois, um.

(Arnaldo Antunes)

08/10/2010

[...] Pedra


Olho fixamente uma pedra, que está sobreposta no espaço e no tempo. Observo a sua forma, seus contornos de uma maneira mais detalhada possível e que foram moldados por chuvas a ventos. Quantas vidas e quantas eras já viram ou virão esta pedra. Parece tão estática à primeira vista quando a imaginamos fixa no espaço, porém tão insistente ao tempo. Agora a pedra está contida em minha memória por pouco tempo comparado ao tempo de minha vida (a não ser que a morte venha antes da pedra se perder em meu inconsciente). Olho esta pedra e penso na vida e na morte... propriedade que esta pedra nunca possuirá, pois é algo inanimado. Reparo que a origem da palavra inanimado vem de "sem alma" e se posso pensar isso é porque tenho alma, isto é, eu vivo e faço uso da razão, logo não sou um ser inanimado. Chego a conclusão que esta pedra não é algo estático, pois foi transportada em meu pensamento e depertou ideias. Também, não é tão duradoura comparada a minha alma.

(Luis Valério Prandel)

11/09/2010

[Física] Leis da Física podem variar ao longo do Universo

|Clique aqui para ler o artigo original|


Pelos dados obtidos pelos pesquisadores, a constante alfa não seria constante, mas variável, contrariando o princípio da equivalência de Einstein, que estabelece que as leis da física são as mesmas em qualquer lugar.

Uma equipe de astrofísicos está propondo uma teoria que muda radicalmente a forma como entendemos o Universo.

Em um artigo ainda não aceito para publicação em revistas científicas, o grupo afirma ter encontrado indícios de que as leis da física são diferentes em diferentes partes do Universo.

Constante alfa

O artigo propõe que uma das supostas constantes fundamentais da natureza talvez não seja assim tão constante.

Em vez disso, este "número mágico", conhecido como constante de estrutura fina - ou constante alfa - parece variar ao longo do Universo. A constante alfa mede a magnitude da força eletromagnética - em outras palavras, a intensidade das interações entre a luz e a matéria.

Há alguns anos, físicos propuseram que alfa poderia ter variado ao longo do tempo - numa escala de 12 bilhões de anos - mas agora os físicos propõem que ela varia ao longo do espaço.

Pelos dados obtidos pelos pesquisadores, a constante alfa não seria constante, mas variável, contrariando o princípio da equivalência de Einstein, que estabelece que as leis da física são as mesmas em qualquer lugar.

"As implicações para o nosso entendimento atual da ciência são profundas. Se as leis da física passam a ser apenas 'sub-leis locais', pode ser que, embora a nossa parte observável do Universo favorece a existência da vida e dos seres humanos, outras regiões mais distantes podem ter diferentes leis que se oponham à formação da vida, pelo menos tal como a conhecemos," especula ele.

Eixo magnético universal

As conclusões dos pesquisadores foram baseadas em medições realizadas com o Very Large Telescope (VLT), no Chile, e com os maiores telescópios ópticos do mundo, no Observatório Keck, no Havaí.

"Os telescópios Keck e VLT estão em hemisférios diferentes - eles olham para direções diferentes ao longo do Universo. Quando olhamos para o norte com o Keck, vemos em média um alfa menor nas galáxias distantes, mas quando olhamos para o sul com o VLT, vemos um alfa maior," explica o Dr. Julian King, coautor do trabalho.

A variação observada é muito pequena, não mais do que 1 parte em 100.000. "Mas é possível que variações muito maiores possam ocorrer fora do nosso horizonte observável", especula King.

"Depois de medir a constante alfa em cerca de 300 galáxias distantes, surgiu uma consistência: este número mágico, que nos dá a força do eletromagnetismo, não é o mesmo em todos os lugares, como ele é aqui na Terra, e parece variar continuamente ao longo de um eixo preferencial através do universo," explica o professor John Webb, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Leis da Física podem variar ao longo do Universo


A variação da constante alfa foi detectada como uma continuidade ao longo do espaço, o que daria uma espécie de "eixo preferencial" para o Universo - é como se houvesse um eixo magnético universal, atravessando todo o Universo observável, da mesma forma que há um eixo magnético de polo a polo da Terra.


Este talvez seja o elemento mais intrigante da proposta, o fato de a variação ter sido detectada como uma continuidade ao longo do espaço, o que daria uma espécie de "eixo preferencial" para o Universo - é como se houvesse um eixo magnético universal, atravessando todo o Universo observável, da mesma forma que há um eixo magnético de polo a polo da Terra.

De forma bastante interessante, esse eixo magnético universal coincide com medições anteriores que deram origem à teoria do chamado Fluxo Escuro, que indica que uma parte da matéria do nosso Universo estaria vazando por uma espécie de "ralo cósmico", sugada por alguma estrutura de um outro universo.

Variação das leis da física

Se os dados se confirmarem - e não tiverem outra explicação menos revolucionária - um achado como esse poderia obrigar os cientistas a repensarem totalmente sua compreensão das leis da Natureza.

"A constante de estrutura fina, e outras constantes fundamentais, são absolutamente centrais para a nossa teoria atual da física. Se elas realmente variam vamos precisar de uma teoria melhor, mais profunda," arrisca o Dr. Michael Murphy, coautor do trabalho.

A variação das leis da física, seja no espaço ou no tempo, sempre ocupou a mente dos cientistas. Pelas teorias atuais, uma pequena variação de alfa, por exemplo, significaria que as estrelas não produziriam carbono, a base da química que forma a vida na Terra.

É por isso que os cientistas afirmam que são as características "especiais" deste nosso ponto no Universo que criam as condições para a vida como a conhecemos, características estas que poderiam não existir em outros pontos. Uma afirmação de resto circular - poderia haver outros "pontos de equilíbrio", que dariam origem a formas de vida diferentes da nossa, algo como "se a vida não fosse assim, seria diferente" - descartada, obviamente, a hipótese da "não-vida".

"Embora uma 'constante variável' possa abalar a nossa compreensão do mundo que nos rodeia, afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. O que estamos descobrindo é extraordinário, não há dúvida sobre isso," diz Murphy.

Talvez. Mas tudo recomenda que se espere até que o artigo seja revisado por outros cientistas e aceito para publicação em uma revista conceituada. Resta saber, sobretudo, se os outros cientistas acharão que uma variação de 1 em 100.000 é assim tão extraordinária.



Fonte: http://www.inovacaotecnologica.com.br

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