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30/12/2013

[Filosofia] O que é hermenêutica?

No campo da Filosofia, a hermenêutica ocupa-se de compreender a natureza humana e interpretar a produção escrita, seus sentidos profundos e teias de significados. 


É basicamente uma análise de linguagem e da comunicação, tanto que sua palavra, segundo alguns historiadores, vem da figura de Hermes, figura mitológica grega que, entre outros outros atributos, seria o mensageiro dos deuses. Outra corrente defende que a palavra "hermenêutica" deriva de um verbo grego cuja acepção é interpretar, declarar. 

O certo é que a hermenêutica penetrou em várias áreas do conhecimento, como a Literatura, o Direito e a Antropologia


(Fonte: Revista Filosofia - N° 29)

29/05/2013

[Fé] Em tua imensa misericórdia, toda a minha esperança


Onde te encontrei, Senhor, para te conhecer? Não estavas certamente em minha memória antes que eu te conhecesse.

Onde então te encontrei para te conhecer, a não ser em ti, acima de mim? Não é propriamente um lugar. Afastamo-nos, aproximamo-nos e não é um lugar. Em toda parte, ó Verdade, presides a todos que vêm com diferentes consultas.

Com clareza respondes, porém, nem todos ouvem com clareza. Todos perguntam o que querem e nem sempre ouvem o que querem. Ótimo servo teu é quem não espera ouvir de ti o que desejaria, mas antes quer aquilo que de ti ouve.

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-me longe de ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz.
            
Quando me uno a ti com todo o meu ser, não há em mim dor nem fadiga. Viva será minha vida, toda repleta de ti. Agora ergues o que de ti está repleto. Como ainda não estou pleno de ti, sou um peso para mim. Lutam minhas lamentáveis alegrias com as tristezas deleitáveis. De que lado estará a vitória, não sei.
            
Ai de mim, Senhor! tem piedade de mim. Lutam minhas más tristezas com as boas alegrias e não sei quem vencerá. Ai de mim, Senhor! Tem piedade de mim! Ai de mim! Bem vês que não escondo minhas chagas. És o médico; eu, o doente. És misericordioso; eu, o miserável.
            
Não é verdade que a vida humana na terra é uma tentação? Quem deseja pesares e dificuldades? Ordenas tolerá-los, não amá-los. Ninguém ama aquilo que tolera, mesmo se gosta de tolerar. Embora alegre-se por tolerar, prefere não ter que tolerá-lo. Na adversidade desejo a felicidade; na felicidade temo a adversidade. Que meio termo haverá onde a vida humana não seja uma tentação? Ai da felicidade do mundo, uma e duas vezes, pelo temor da adversidade e pela caducidade da alegria! Ai das adversidades do mundo, pelo desejo da felicidade! A adversidade é dura e faz naufragar a tolerância. Não é verdade que é uma tentação a vida humana sobre a terra? Em tua imensa misericórdia ponho toda a minha esperança.


(Santo Agostinho, in "Confissões", Lib. 10,26.37–29,40; CCL 27,174-176, Séc.V)

21/11/2012

[Filosofia] O Entendimento Humano


"Dizer que há verdades impressas na alma, que a alma não apercebe ou não entende, é, parece-me, uma espécie de contradição, pois a ação de imprimir não designa outra coisa senão fazer aperceber certas verdades. (...) Dizer que uma noção está gravada na alma e sustentar ao mesmo tempo que a alma não a a conhece e que não teve ainda nenhum conhecimento dela, é fazer desta impressão um puro nada. Não se pode de todo assegurar que uma certa proposição esteja no espírito , quando o espírito ainda não a apercebeu nem descobriu nenhuma ideia em si próprio. (...) E assim esta grande  questão reduzir-se-á unicamente a dizer que aqueles que falam de princípios inatos falam muito impropriamente; mas que no fundo eles creem na mesma coisa que os que negam que os haja; porque não penso que alguém tenha alguma vez negado que a alma fosse capaz de conhecer várias verdades. É esta capacidade, diz-se, que é inata; e é o conhecimento de tal ou tal verdade que se deve chamar adquirida. Mas se é isso tudo o que se pretende, para quê o entusiasmo em manter que há certas máximas inatas ? (...)

Admitamos, pois, que, na origem, a alma é como que uma tábua rasa, sem quaisquer caracteres, vazia de qualquer ideia. Como é que adquire ideias? Por que meio recebe essa imensa quantidade que a imaginação do homem, sempre ativa e ilimitada, lhe apresenta com uma variedade quase infinita? Aonde vai ela buscar todos esses materiais que fundamentam os seus raciocínios e os seus conhecimentos? Respondo com uma palavra: à experiência. É essa a base de todos os nossos conhecimentos e é nela que assenta a sua origem. As observações que fazemos no que se refere a objetos exteriores e sensíveis ou as que dizem respeito às operações interiores da nossa alma, que nós apercebemos e sobre as quais reflectimos, dão ao espírito os materiais dos seus pensamentos. São essas as duas fontes em que se baseiam todas as ideias que, de um ponto de vista natural, possuímos ou podemos vir a possuir.

E primeiramente, sendo os sentidos excitados por certos objetos exteriores, fazem entrar na alma várias percepções distintas das coisas, segundo as diversas maneiras por que estes objetos agem sobre os nossos sentidos. É assim que adquirimos as ideias que temos do branco, do amarelo, do quente, do frio, do duro, do mole, do doce, do amargo, e de tudo o que denominamos qualidades sensíveis. Direi que os nossos sentidos fazem entrar todas estas ideias na nossa alma, pelo que me parece que eles fazem entrar objetos exteriores na lama, o que produz nela estas espécies de percepções. E como esta grande fonte da maior parte das ideias que nós temos depende inteiramente dos sentidos e por meio deles se comunica ao entendimento, chamo-a sensação.

A outra fonte de que o entendimento vem a receber ideias  é a percepção das operações da nossa alma sobre as ideias que recebeu dos sentidos: operações que, tornando-se o objeto das reflexões da alma, produzem no entendimento uma outra espécie de ideias, que os objetos exteriores não poderiam ter-lhe fornecido : tais são as ideias do que chamamos aperceber, pensar, duvidar, crer, raciocinar, conhecer, querer e todas as diferentes ações da alma. (...) Chamarei a esta fonte [do nosso conhecimento] reflexão, porque por seu intermédio a alma não recebe senão as ideias que adquire refletindo sobre as suas próprias operações.

O entendimento não me parece ter absolutamente nenhuma ideia que lhe não venha de uma destas duas fontes (...), embora talvez combinadas e aumentadas pelo entendimento, com uma variedade infinita."

(John Locke in "Ensaio sobre o Entendimento Humano")

02/10/2012

[Filosofia / Psicologia] Liberdade de poder-ser do humano



Desde que nasce o ser é livre e responsável por seu destino. Diante de diversas possibilidades que vêem ao humano, a cada humano somente uma possibilidade realiza o seu ser. O que torna cada ser-humano insubstituível é justamente o fato de que a vida apresenta-se como sendo irrepetível e que há um caráter único na existência de cada ser. O existir humano corresponde a poder-ser, a um ser livre e responsável e à realização de um destino, este não apenas pode ser comparado a um chão sobre o qual o ser pisa, mas um meio de alcançar a liberdade diante da existência.

Em termos de comunidade ou de agrupamentos de massa. O que se deve ter em mente é que não se vive sem um grupo em que se possa amparar, pois a constituição da existência humana depende daquilo que se estabelece em termos coletivos. Mas há muitos momentos em que estar aderido completamente a uma massa de sujeitos faz com que o ser se esqueça de sua responsabilidade diante de sua liberdade. Como ser moral, o humano entre em embate com algo que lhe é determinado, no caso o que a massa determina. A liberdade se realiza mediante um destino que é único e irrepetível para cada humano, não quer dizer que os seres-humanos são superiores, os únicos, melhores e maiores, mas que cada um realiza seu de destino como algo que lhe é único. O passado já foi consumado, mas o sujeito pode reformular sua vida buscando dar sentido ao que já ocorreu ou cair na fatalidade. 

Mesmo diante da finitude, do fim de toda e qualquer existência e da proximidade da dita hora “H”, cada sujeito pode encontrar um sentido para seu existir e viver. Como é dito, a morte é o que atribui sentido à existência de cada indivíduo. As pessoas fogem de um caminho a que todos estão sujeitos, se rebela, entra em conflito e não aceitam o fim e a sua chegada, mas esquecem que sua vida é única e que cada momento da vida, cada sentido e cada existir não se repetem. O ser é ser-responsável, pois justamente estar diante da liberdade. Não há uma continuidade de sentido com a herança genética, pois o sentido é de cada pessoa, de cada situação e de cada momento. O sentido que um sujeito encontra ao cumprir determinado destino lhe único, insubstituível e termina com a morte desse mesmo sentido. Não se pode dizer que haja uma continuidade de sentido, pois aquilo que um descendente realiza um destino que lhe é próprio e não é o mesmo do antecessor de cada pessoa. Há uma crença de que o destino escapa à compreensão e ao domínio do homem. Na verdade, não há liberdade sem destino e destino sem liberdade. Os dois estão muito próximos, estando interligados.

(Viktor Frankl)

11/02/2012

[...] Nós*

Nós humanos... Seres simples diante de um todo e ao mesmo tempo complexos diante de uma parte da própria consciência. Estamos mergulhados em um fluído denso de informações as quais nos causam prazer ou dor. O que é nossa vida senão um aglomerado de causas e efeitos, atos potências ao longo do tempo? Os vazios da alma podem ser preenchidos provisoriamente por fluídos denominados "sonhos" que são agentes causadores de potencialidades. Se tudo isso gerar prazer em nossa vida e a consciência acordar, a alma torna-se livre para que esses sonhos sejam convertidos em atos de amor totalmente efetivos. Nós: conjunto de seres que podem afetar positivamente (ou não) a simplicidade e a complexidade humana!

(Luis Valério Prandel)        
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* A palavra "nós" pode ser interpretada em duplo sentido: tanto como pronome pessoal da primeira pessoa do plural ou como o plural de laço, neste caso, de  pessoas que são interligadas de certa maneira, formando as redes sociais.

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