Frase do dia

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30/09/2012

[Poema] Como eu te amo


Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá no extremo do horizonte aponta;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite a mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vai e vem a nau flutua;

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
O manso vento que nos bosques rondeia,
O sussurro da fonte que passeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncios e cores, perfumes e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus.

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-te os lábio meus, - mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em tí. - Por tudo quanto sofro,
Por quando já sofri, por quanto ainda
Me resta sofrer, por tudo eu te amo!

(Gonçalves Dias)

16/09/2012

[Poema] Noturno


Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?


(Ariano Suassuna)

31/07/2012

[Vídeo / Música] Pra sonhar




Quando te vi passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim viu
Me vi na sua mão


Perdi a hora de voltar para o trabalho
Voltei pra casa e disse adeus pra tudo que eu conquistei
Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo


Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra sonhar
Pra sonhar


O que era sonho se tornou realidade
De pouco em pouco a gente foi erguendo o nosso próprio trem,
Nossa Jerusalém,
Nosso mundo, nosso carrossel
Vai e vem vai
E não para nunca mais


De tanto não parar a gente chegou lá
Do outro lado da montanha onde tudo começou
Quando sua voz falou:
Pra onde você quiser eu vou
Largo tudo


Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave-Maria, sei que há
Uma história pra contar


Domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave-Maria, sei que há
Uma história pra contar
Pra contar

(Marcelo Jeneci)

30/04/2012

[Poema] Do Medo


(1)


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 


Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


(2) 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 


desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


(Luis Filipe Castro Mendes, em "A Ilha dos Mortos")

15/02/2012

[Poema] Anjos do mar


As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d’escuma revolvem-se nus! 


E quando, de noite, vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear...
E a trança luzente da nuvem flutua...
As ondas são anjos que dormem no mar!


Que dormem, que sonham... e o vento dos céus
Vem tépido, à noite, nos seios beijar!...
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!


E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar...
São beijos que queimam... e as noites deliram
E os pobres anjinhos estão a chorar!


Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar...
Por que não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar


(Álvares de Azevedo)

15/01/2012

[Poema] "L-ou-cura"


palavras mordendo
as almas caídas
em becos vivendo
autor iludido
a um corpo físico
vai engrandecendo
temor que é tísico
aqui foi tecendo
entranhas ao vento
loucura tangendo
liberando dores
e do mal sofrendo
amargos sabores
língua adoecendo
lágrimas e sangue
e pêlos crescendo
da pele restante
insetos vivendo
paredes são tortas
vão alvorecendo
naturezas mortas
estão comprazendo
humores inatos
vão enlouquecendo
desejos e atos
ali parecendo
no branco escuro
estão convertendo
acima do muro
a vida tecendo
poeira ao vento
os dentes rangendo
talvez sofrimento 

(Luis Valério Prandel)

08/01/2012

[Canção / Vídeo] Cântico das Criaturas


Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
Altissimu, onnipotente bon Signore,
a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Tue so' le laude, la gloria e l'honore et onne benedictione.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar
Ad Te solo, Altissimo, se konfano,
e nenhum homem é digno de te nomear.
et nullu homo ène dignu te mentovare.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
Laudato sie, mi' Signore cum tucte le Tue creature,
especialmente o meu senhor irmão Sol,
spetialmente messor lo frate Sole,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
lo qual è iorno, et allumeni noi per lui.
E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
de Te, Altissimo, porta significatione.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas:
Laudato si', mi Signore, per sora Luna e le stelle:
no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
in celu l'ài formate clarite et pretiose et belle.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento
Laudato si', mi' Signore, per frate Vento
e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo,
et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.
per lo quale, a le Tue creature dài sustentamento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,
Laudato si', mi' Signore, per sor Aqua,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo,
Laudato si', mi Signore, per frate Focu,
pelo qual alumias a noite:
per lo quale ennallumini la nocte:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,
Laudato si', mi' Signore, per sora nostra matre Terra,
que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,
la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi
com flores coloridas, e verduras.
con coloriti flori et herba.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor
Laudato si', mi Signore, per quelli che perdonano per lo Tuo amore
e suportam enfermidades e tribulações.
et sostengono infirmitate et tribulatione.
Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,
Beati quelli ke 'l sosterranno in pace,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
ka da Te, Altissimo, sirano incoronati.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,
Laudato si' mi Signore, per sora nostra Morte corporale,
à qual nenhum homem vivente pode escapar:
da la quale nullu homo vivente po' skappare:
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
beati quelli ke trovarà ne le Tue sanctissime voluntati,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
ka la morte secunda no 'l farrà male.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças
Laudate et benedicete mi Signore et rengratiate
e servi-o com grande humildade...
e serviateli cum grande humilitate...

(São Francisco de Assis)

06/08/2010

[Comentário] Perguntas

Quando a nossa vã filosofia de não aprender a aceitar as coisas da maneira que elas são e de não tentar mudar aquilo que pode e deve ser mudado ocorre, podemos ser comparados com nossos antepassados não-civilizados que não viviam, mas sobreviviam mediante seus instintos.

A falta ou não-falta de aprendizagem, aceitação e mudança geram perguntas e mais perguntas que não querem calar..., e como é dito por aí que "não são as respostas que movem o mundo e sim as perguntas"... Então analisemos tantas perguntas: algumas bem respondidas e muitas não. São perguntas que ficam vagando sem respostas ao longo da história, perguntas mal formuladas e até perguntas sem nenhum tipo de fundamento, ou seja, perguntadas por perguntar.

Com estes tipos de perguntas, que são jogadas ao vento, sem fundamento, fazem com que o mundo não desenvolva. Nosso mundo é civilizado ou aparentemente civilizado?

(Luis Valério Prandel)

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