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17/07/2012

[Vídeo / Música] Afinal de Contas



Sei de cor e salteado a ordem dos fatores
E a razão do resultado não bater
Não me cobre seus valores
Às vezes dividir vale mais que pertencer


Eu já perdi a conta, eu já errei demais
Pra você foi faz de conta, então pra mim é tanto faz
Em linhas gerais, você jamais precisou dos meus sinais
E me desaponta quando desmonta suas medidas desiguais


Calcule o estrago por aí
Que eu não te trago mais aqui
Se está vago é porque se não foi somente se




Se um mais um é dois
Estes dois não somos nós
Eu aposto que depois
Que a gente der nome aos bois
Não vai sobrar minha voz
Pra contar como é que foi


Pois dois pesos, duas medidas
E tuas promessas não cumpridas?


Calcule o estrago por aí
Que eu não te trago mais aqui
Se tá vago é porque se não foi somente se
[2x]


(Heitor e Banda Gentileza)

30/04/2012

[Poema] Do Medo


(1)


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 


Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


(2) 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 


desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


(Luis Filipe Castro Mendes, em "A Ilha dos Mortos")

14/02/2012

[Poema] Caminho além do caminho


O caos fundiu aquele olhar,
Palpitando emoções.
A voz insistiu a clamar,
Nos vãos dos corações.

Passado profundo...

Emancipando mente travada,
Protesto garantido,
De uma mente enclausurada,
E um só indefinido.

Presente oriundo...

Assim a irmã da minha loucura
É minh'alma abatida.
A mãe de toda minha ternura,
Aqui fortalecida.

Futuro rotundo...

Aspergiremos palavras sem nexo, 
Aos olhos da razão.
Irá além do prazer perplexo,
Parte do corpo são.

(Luis Valério Prandel)

29/12/2011

[Poema] A vida vivida

Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?




De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?

A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?

Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?

O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?

O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?


(Vinícius de Moraes)

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