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28/12/2012
17/07/2012
[Vídeo / Música] Afinal de Contas
Sei de cor e salteado a ordem dos fatores
E a razão do resultado não bater
Não me cobre seus valores
Às vezes dividir vale mais que pertencer
Eu já perdi a conta, eu já errei demais
Pra você foi faz de conta, então pra mim é tanto faz
Em linhas gerais, você jamais precisou dos meus sinais
E me desaponta quando desmonta suas medidas desiguais
Calcule o estrago por aíQue eu não te trago mais aqui
Se está vago é porque se não foi somente se
Se um mais um é dois
Estes dois não somos nós
Eu aposto que depois
Que a gente der nome aos bois
Não vai sobrar minha voz
Pra contar como é que foi
Pois dois pesos, duas medidas
E tuas promessas não cumpridas?
Calcule o estrago por aí
Que eu não te trago mais aqui
Se tá vago é porque se não foi somente se
[2x]
(Heitor e Banda Gentileza)
30/04/2012
[Poema] Do Medo
(1)Não pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma fábula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.
Não pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugnância.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a angústia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.
(2)
Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os pássaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que não estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema
desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de angústia
e ervas bravias — nada mais
pode fazer.
(Luis Filipe Castro Mendes, em "A Ilha dos Mortos")
14/02/2012
[Poema] Caminho além do caminho

O caos fundiu aquele olhar,
Palpitando emoções.
A voz insistiu a clamar,
Nos vãos dos corações.
Emancipando mente travada,
Protesto garantido,
De uma mente enclausurada,
E um só indefinido.
Assim a irmã da minha loucura
É minh'alma abatida.
A mãe de toda minha ternura,
Aqui fortalecida.
Aspergiremos palavras sem nexo,
Aos olhos da razão.
Irá além do prazer perplexo,
Parte do corpo são.
(Luis Valério Prandel)
29/12/2011
[Poema] A vida vivida

Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do SonhoSenão uma grande angústia obscura em face da AngústiaQuem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvelE cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?De que venho senão da eterna caminhada de uma sombraQue se destrói à presença das fortes claridadesMas em cujo rastro indelével repousa a face do mistérioE cuja forma é prodigiosa treva informe?Que destino é o meu senão o de assistir ao meu DestinoRio que sou em busca do mar que me apavoraAlma que sou clamando o desfalecimentoCarne que sou no âmago inútil da prece?O que é a mulher em mim senão o TúmuloO branco marco da minha rota peregrinaAquela em cujos braços vou caminhando para a morteMas em cujos braços somente tenho vida?O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impossívelSenão a estrela parada num oceano de melancoliaO que me diz ele senão que é vã toda a palavraQue não repousa no seio trágico do abismo?O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminadoO meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmoO meu eterno partir da minha vontade enorme de ficarPeregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentosDe vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédioA quem falo senão a multidões de símbolos errantesCuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a LínguaDa nuvem a Palavra imortal cheia de segredoE do fundo do inferno delirantemente proclamá-losEm Poesia que se derrame como sol ou como chuva?O que é o meu ideal senão o Supremo ImpossívelAquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu aneloO que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-loE o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimentoO temor imperceptível na voz portentosa do ventoO bater invisível de um coração no descampado...O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?
(Vinícius de Moraes)
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